Como (não) montar seu próprio negócio II

Na primeira parte dessa série comentei sobre o que envolve montar um negócio. Agora chegou o momento de compartilhar algumas lições aprendidas com base em uma experiência real: uma empresa que tive há alguns anos atrás, na época ainda da “web 1.0″. Colocarei aqui o assunto da forma como vejo, os fatores que - para o meu negócio - foram decisivos:

#1 - Definição do negócio e conhecimento do mercado: Saber quem vai consumir seus produtos ou serviços e saber se seus produtos ou serviços atendem as necessidades e os desejos desses consumidores. É uma idéia batida, mas garanta que isso seja atendido, mantenha esse foco. A preocupação com concorrência é válida, mas a existência de outras empresas que oferecem o mesmo não indica que deve desistir ou mudar de ramo, o que importa aqui é a relação “o que ofereço” e “quem paga por isso”. Por mais concorrentes que existam em um cenário pode acreditar que sempre tem espaço para algo a mais, algo diferente, algo inovador, ou no mínimo algo que foi deixado de lado e que faria a cabeça de novos clientes. Conhecer o cenário indica também conhecer seus possíveis parceiros (pessoas ou empresas que podem indicar seu produto ou trabalhar junto, como fornecedores e outros profissionais), saber como a informação circula e o que melhor atinge seus consumidores (por exemplo saber se existem eventos onde possíveis clientes se reunem, como feiras e congressos). Ao definir um negócio, não tenha medo de ousar. Se for serviço, não tenha medo de, por exemplo, ser especialista em uma coisa só (e de alto valor no mercado) ao invés de pegar tudo que aparece. Conheço muita gente que trabalha com manutenção de computadores, todos lidando o dia inteiro, todo dia, com os mesmos problemas, ganhando várias pequenas parcelas de dinheiro. Nenhum deles foi mais fundo, nenhum deles é, por exemplo, especialista em notebook. Ser especialista em notebook é uma boa? Tem mais valor no mercado? Com certeza!

#2 - Regras do Jogo: Tudo aquilo que é necessário saber para montar e manter uma empresa nesse país, ou seja, as leis, impostos, regras de contrato, contabilidade, etc. Em primeiro lugar ter um Contador (ou Escritório de Contabilidade especializado) é muito importante, só que mais importante ainda é entender como tudo funciona antes de contratar um.  Isso significa, por exemplo, entender o que é Imposto de Renda e quais as obrigações junto ao INSS, Prefeitura e Receita Federal. Na contratação de um Contador ou Escritório de Contabilidade por favor seja cauteloso, investigue, saiba para quais outras empresas eles trabalham, verifique a estrutura do escritório, cheque as referências. Acredite quando eu digo, tudo isso é MUITO SÉRIO. Da mesma forma como qualquer serviço, não escolha o que cobre menos, vá pelo que faz melhor, até porque é a sua empresa que vai estar “nas mãos dele”. Um erro, uma data esquecida, representa multas e uma bola de neve de problemas. Uma recomendação a mais: não abra mão da ajuda de um advogado, pode ser alguém conhecido ou algum profissional especializado, principalmente em questões trabalhistas e Defesa do Consumidor, que possa dar uma consultoria. No caso do seu serviço envolver contratos, licença de softwares, a ajuda de um advogado é obrigatória, mas um que entenda disso. Por exemplo, pouquíssimos profissionais dessa área tem noção do que seja a GPL ou o Creative Commons.

#3 - Plano de Negócios: Não precisa ser rigoroso - a não ser que esteja em busca de empréstimo ou investimento de terceiros. Basicamente você precisa colocar no papel tudo sobre o seu negócio da forma mais prática, objetiva e realista possível, principalmente a parte financeira. É saber de antemão e especificar quais os produtos e serviços, os custos e os ganhos, incluindo os impostos e todas as Regras do Jogo. Mais ainda, faça o exercício de tentar descrever o que você mesmo se propõe a fazer, comercializar e ganhar como se tivesse que convencer um investidor. Nessas horas muitas verdades vem à tona, acredite! Um erro comum em vários planos é superestimar os ganhos. Por exemplo: “ah, tem 300 empresas na região, cada uma pagando mensalmente 50 reais… vou ter 15 mil por mês!!!”, ok, o cálculo está correto, mas será que existem mesmo essas 300 empresas? Será que todas elas estão dispostas a pagar esse valor? Será que pelo menos 10% delas se interessam pelo seu serviço?

#4 - Tempo e Organização: Esse ponto é um dos mais complexos porque trata do dia-a-dia, da forma como os trabalhos são organizados e desenvolvidos. A primeira idéia aqui é sobre como encarar o negócio. Muitos já tem seus empregos, outras atividades e se aventuram também com uma empresa. Para essas pessoas, essa empresa nunca vai deixar de ser um “bico”. Um negócio requer, antes de tudo, dedicação, requer tempo. Não pense que dá pra tocar um negócio trabalhando 4 horas por dia (atendendo clientes, gerenciando pessoas) quando a prioridade é o outro emprego que dá aquele “sustento” fixo todo mês. Pra quem é freelancer (pega um serviço ou outro de forma irregular) até pode ser aceitável, mas uma empresa de verdade, com mais de uma pessoa além de você, com impostos a pagar e tudo mais? Sem chance. A segunda idéia é a da organização: utilize algum sistema de organização das tarefas, um gerenciador de Projetos. Não precisa ser um MS Project, até porque existem várias alternativas online, mas utilize um, qualquer um que você possa acompanhar, a qualquer momento, o andamento dos projetos, e que você possa classificar e filtrar por cliente, por tipo de projeto, por pessoal envolvido, etc. Mais ainda, esse aspecto de organização tem que atingir o cliente também, para que ele acompanhe o projeto, participe. Sem um mínimo de organização é impossível fazer, por exemplo, um contrato que pelo menos se aproxime de ser cumprido.

#5 - Equipe e Sintonia: Todos na sua equipe tem que, além de saber trabalhar bem, estar em sintonia com o propósito da empresa, os objetivos, a forma de agir, a filosofia do negócio, falar a mesma língua. Não importa se são amigos, parentes, tem que estar sintonizados. Muitas vezes na ansiedade e até medo inicial de montar um negócio há uma tendência de chamar alguém “de confiança”, aquelas pessoas mais próximas. Nada de errado com isso, mas sinceramente tenha mais medo quando sua empresa se sujar por um trabalho realizado de forma insatisfatória por parte de alguem que não está realmente sintonizado com o negócio. Garanta de que todos estejam no mesmo barco. Muitos pensam que chamar aquele amigo de infãncia, ou o cunhado, pode ser cômodo porque, por serem amigos, vão ser mais complacentes com a situação mambembe da empresa. É preferível que você invista em estrutura e ofereça condições para que profissionais realmente competentes - mesmo que não sejam conhecidos - possam trabalhar na sua empresa.

#6 - Longo Prazo: Fácil, tenha uma visão de longo prazo, para onde sua empresa vai. Pode acreditar que sem uma visão, sem um plano de longo prazo sua empresa vai apenas “apagar incêndio”, dia após dia, e mais cedo ou mais tarde serão engolidos. Simples assim. Isso significa que é importante que mantenha com frequência um debate sobre o futuro, as perspectivas, e dediquem um tempo para isso (estudar, pesquisar). Analisar o mercado e o negócio é um processo constante, e a empresa deve ter um rumo, um norte.

Para completar, o ensino em nosso país não desenvolve muito bem - ou quase nada - a postura empreendedora dos indivíduos, menos ainda prepara realmente para um negócio real. A realidade é um pouco diferente das poucas cartilhas, gráficos e teorias que se vê por aí, exige mais, exige algo que só a experiência pode dar. Por isso recomendo que, se você for estudante e quer montar um negócio no futuro, tente participar de alguma Empresa Júnior. Várias universidades pelo país possuem essas entidades e vale a pena, eu diria até que é o único lugar dentro do ambiente acadêmico onde se pode realmente ter uma experiência dessas.

A série continua… no próximo post vou colocar algumas boas referências para quem quiser saber mais sobre isso e falar um pouco sobre os novos modelos de negócios da web 2.0

Algum comentário?

Posted in web at September 6th, 2008. Trackback URI: trackback
Tags: , ,


2 Responses to “Como (não) montar seu próprio negócio II”

  1. September 6th, 2008 at 12:42 #Roberto Alcântara

    Estas são dicas preciosas para quem está pretendendo começar (ou já começou) o seu próprio negócio.

    Em relação ao profissional contabilista: a maioria deles são generalistas, trabalham para várias empresas com perfis semelhantes.
    Caso a sua empresa fuja do “popular”, como uma empresa de software, por exemplo, você precisa se informar muito bem sobre o que são suas obrigações e benefícios. Algumas vezes existem incentivos fiscais para alguns segmentos de mercado que podem fazer você economizar boa parte dos gastos com o “sócio” governo.

    Aguardo o próximo ;-)

  2. September 8th, 2008 at 10:23 #Valdir

    É Roberto, muito bem lembrado. No meu caso mesmo, o contador não entendeu o “tipo” de empresa e o cadastrou em outro que ele achou parecido, mas que na verdade não tinha nada a ver.

    Valeu pela contribuição!

    Grande Abraço

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>